Mais high-tech que isso só se o post fosse em 3D!!!!!!
Em algum momento do começo do ano passado, meus pais decidiram que seria uma boa ideia viajar, pra variar um pouco as coisas. Então eles compraram as passagens, arrumaram as malas, prepararam tudo pra no último momento lembrar "ei, e o Lucas?" Não tô brincando, eles me avisaram, tipo, dois dias antes da viagem. Eu cheguei naquela fase da vida onde você é velho demais pra ser mimado, mas novo demais pra ser botado pra fora, então você passa a viver meio que à margem da casa. Claro, desde a adolescência que eu já passava horas trancado dentro do quarto saindo só pra pegar comida na cozinha e voltar, mas naquela época eu ainda arranjava problemas pros meus pais que só eles podiam resolver. Hoje em dia, se minha mãe me pega catando comida na geladeira de madrugada, é capaz de chamar a polícia se não lembrar a tempo de que (ainda) tem um filho.
De qualquer forma, já não tinha como voltar atrás. Dois dias e estariam seguindo para Salvador - o mundo possui apenas dois pontos turísticos pros meus pais: Salvador e a casa no interior da minha avó. Minha mãe veio me dar a notícia, e disse que ia deixar a casa inteira sob minha supervisão. Tinha comida congelada pra todos os dias na geladeira e uma grana caso faltasse algo, o suficiente para sobreviver a semana inteira. Minhas únicas obrigações seriam alimentar os cachorros, fechar as janelas quando chovesse, lavar a louça e, claro, CONTINUAR VIVO.
Naquele momento, a primeira imagem que veio à minha cabeça foi:

Na da minha mãe, tenho certeza que foi:

No Brasil, party houses não são um hábito tão comum aqui quanto nos Estados Unidos (e digo isso tomando como única base os filmes da década de 80 e 90 que eu cresci vendo na TV comparados às minhas experiências sociais dos últimos anos, claro). É preciso que toda uma série de variáveis se alinhe de forma que seja perfeitamente possível, naquela semana, naquele dia, exclusivamente naquela noite, dar uma festa sensacional que será comentada por todo mundo até anos depois.
Organizar uma festa é extremamente complicado. Normalmente, você só conhece a parte legal da festa, quando todos já estão dançando e ficando bêbados e pegando nos genitais uns dos outros, mas os bastidores não são tão divertidos assim. Não é trabalho só para um, mas sim de vários homens capazes e comprometidos com este objetivo em comum. Você precisa dos melhores. Por isso, convoquei Pedro, Nohway e Sid, nos reunimos dias antes da data ao redor de uma planta da casa esticada em cima da escrivaninha e começamos a traçar com nossos compassos e esquadros nossos planos e dividir nossas tarefas.

- Quem sabe umas putas
A preparação
Para fazer uma festa aí na sua casa, você vai precisar de:
Uma casa. (Bom... dã.) Grande, de preferência, e a minha tem esse quintal particularmente generoso, com uma piscina pequena que eu gosto de dizer que é um ofurô ao ar livre mas na verdade é só uma piscina pequena mesmo (por isso, você já sabe que tem algo de errado se a água ficar quentinha). Essa era, basicamente, a minha parte: organizar todo o quintal, limpar a área, guardar tudo o que poderia ser derrubado, quebrado, queimado, amassado, mordido, rasgado, jogado, rachado, partido, roubado e/ou vomitado. E pendurar uns enfeitinhos também.
Pessoas. Item mais importante de todos. Afinal, você pode dar uma festa sem casa (no meio da rua mesmo, qual o problema?), você pode dar uma festa sem álcool (seria uma droga de festa, mas ainda assim uma), você pode até dar uma festa sem... VOCÊ (SIM, VOCÊ). Mas você não pode dar uma festa sem pessoas. Então, se você quiser pessoas na sua festa, então você precisa... de mais pessoas! Nosso maior trabalho foi mesmo listar todo mundo que conhecíamos e dividir em dois grupos: pessoas que queremos na nossa festa e pessoas que NÃO queremos na nossa festa. Acabou que o segundo grupo acabou ficando bem maior que o primeiro, inclusive com os nomes de alguns de nós mesmos, então tivemos que abrir algumas exceções e criar um terceiro grupo chamado pessoas que não queremos na nossa festa mas que seria uma boa chamar senão não vai ter festa. Até porque as pessoas vão nas festas pra beber e em seguida beijar as outras, nessa ordem, e se elas estiverem bastantes bêbadas, podem até beijar... VOCÊ.
(SIM, VOCÊ)
Bebidas. O álcool é importante pra ser usado como desculpa pelas pessoas pra fazer coisas que não fariam sóbrias, como lamber o mamilo dos outros no Verdade ou Desafio ou acordar na cama com outros dois caras que conheceu na noite anterior. Enfim, é o tempero da coisa toda. O acordo era que todo mundo levaria grana, assim o número de convidados seria diretamente proporcional à quantidade de álcool disponível. Ainda é preciso lembrar do refrigerante e suco de saquinho pra misturar com a vodka, tudo isso tem que ser levado em consideração, então foi importantíssimo frisar que todo mundo que quisesse beber tinha que levar dinheiro, caralho.
Tesourinha sem ponta e o auxílio de um adulto!!!!!!!! Mentira.
Música. e esse é o item mais complicado e polêmico de todos. Você vê, gosto é que nem cu: alguns têm e outros não (era isso mesmo? Ficou estranho). Então o jeito foi mesmo eu, Sid e Nohway fazermos cada um sua playlist, depois revisar pra manter as músicas que fossem repetidas e tirar as que só um quis colocar. Ainda dei liberdade de cada um escolher 5 músicas de preferência pessoal, que não poderiam ser tiradas de jeito nenhum. Bem democrático.
E, mesmo assim, teve gente falando que tava uma merda.
Então, com tudo isso já pronto, eis que finalmente chega o dia. Cervejas na geladeira, música tocando, cachorros presos e objetos de valor escondidos: hora da festa.
A festa
Vocês estão ouvindo, porra?
Vocês estão ouvindo, porra?
As pessoas logo começaram a chegar. Don, Jhan, Su, Carla, Fernanda, Rebs e mais um monte de outras pessoas que você nunca ouviu falar na vida e que por isso não tem sentido listar aqui. Também tinha a Alice, com quem eu estava com vontade de dar umas beijocas já fazia algum tempo. As pessoas iam chegando e eu ia dizendo para ficarem à vontade, como bom anfitrião que sou. Eis que finalmente chega o Nohway, que, como já dito aqui, conhece metade da cidade, então ficou responsável por trazer umas gatas.
― Fala cara, trouxe uns gatos ― ok, ele não disse com ESSAS palavras, mas não muda o fato de que só tinha homem! ― Olha, esse aqui é o Hillne e esse aqui é o... Macaco.
Macaco estendeu o braço para me cumprimentar. Do outro lado da cidade, uma estátua da Virgem Maria começou a chorar lágrimas de sangue. Nos Estados Unidos, o gado inteiro de uma fazenda no interior do Kansas caía no chão, inexplicavelmente morto. Ali, no meu quintal, uma garota vomitava na minha piscina logo atrás de mim enquanto uma brisa sinistra atravessava a casa. Se tívessemos velas, elas teriam se apagado e a fumaça teria formado o rosto do próprio Satanás.
Macaco. Me arrepio só de lembrar do nome.
― E aí, cara. Tudo certo? Pode entrar, fica à vontade.
― De boa. Tem cerveja aí?
― Tem de tudo, cara.
― Beleza.
As pessoas foram se abundando ao redor da mesa, servindo-se de bebida. Tequila, cerveja, whiskey, 51, Ice, tínhamos de tudo. Pedro sacou sua maleta de pôquer e alguns começaram a jogar na mesa, enquanto outras preferiam se afastar para conversar sozinhas em uma parte mais afastada do quintal.
Teve essa hora em que eu e Alice estávamos em um brinquedo de rodar que tem no quintal aqui de casa desde que a compramos. Estávamos sozinhos, e logo veio aquele momento em que a conversa cessa, mas vocês ainda estão sorrindo por causa de alguma coisa que algum dos dois disse. Em uma conversa normal, você logo para de sorrir e puxa outro assunto, mas quando os dois querem se beijar (o que era o caso), então esticam o sorriso por mais tempo que o normal, os olhos fixos ora nos olhos do outro, ora baixando para os lábios. É o momento pré-beijo, onde sorriso e o olhar são o sinal universal com o qual o homem diz "olha, vou te beijar agora e tal", enquanto que a mulher responde "ok, se me beijar agora eu não reclamo."
Não demorou pra putaria começar a rolar no mundo, e logo o pessoal já se sentava em rodinha pra uma partida de Eu Nunca (vejam que juventude transviada!!!!!), que acabou inevitavelmente evoluindo pra Verdade ou Desafio. O grande problema do Verdade ou Desafio é que se você não estabelece uma regra de que cada um só tem 3 verdades de crédito, o jogo acaba virando Verdade ou Verdade e ninguém se diverte porque não tem ninguém lambendo o mamilo um do outro. Quando as verdades da galera foram se esgotando, aí sim que a festa começou a ficar divertida, e logo tivemos situações do tipo:
― X, VERDADE OU DESAFIO?
― DESAFIO
― BEIJA A Y
― KJDHDKJHKD AI NÃOOOOO, RS
― ENTÃO BEIJA O Z
― RS ENTAO TA
Juro que eu não fui nenhum dos três.
Enquanto isso, eu e Alice AINDA estávamos nos olhando, e logo o meu sorriso passou de "vou te beijar agora" pra "não sei se se eu te beijar agora você vai aceitar, então vou só ficar aqui te olhando sorrindo igual um retardado até encontrar algum sinal de que devo", enquanto o dela foi de "aceito um beijo agora" pra "me beija logo caralho", frase que ela verbalizou logo em seguida - sorte que não com essas palavras. Eu sou muito mole mesmo.
Daí nos juntamos à rodinha do Verdade ou Desafio. A garrafa girava e girava e girava e logo estava parando em mim pela terceira vez, e eu tive que virar mais uma dose de tequila.
Virei.
A manhã seguinte
8 horas depois.
8 horas depois.
Acordei.
Por algum motivo, eu acordei no chão do escritório. Já é de manhã, não tem mais música alguma e o cenário na minha frente parece daqueles filmes pós-apocalípticos, com carros virados e jornais com manchetes estampado a palavra "QUARENTENA" sendo levados violentamente pelo vento. Sid também estava lá jogado a uns dois metros de mim, e nem sinal do resto do pessoal. Que porra, cara.

Era quase assim, só que com adolescentes bêbados ao invés de caveiras.
Levantei. Fui até o quarto e abri a porta me perguntando por que diabos eu não estava confortável na minha caminha, quando encontro três pessoas lá dentro: Don e Jhan dormindo sem camisa de conchinha e o amigo do Nohway, Hillne, que dormia EM CIMA DELES, meio que formando uma hipotenusa na cama. Ia acordar eles, mas eles estavam tão bonitinhos que decidi deixar lá mais um pouco. =^_^=
Vou descendo as escadas, fazendo meu caminho até a cozinha. Por sorte, encontro alguns remanescentes conversando baixinho lá. Estão se arrumando para ir embora, calçando tênis e colocando as coisas de volta nas mochilas. Pergunto cadê o resto do povo e eles me dão a lista completa de quem já foi e quem ainda está lá.
Minha cabeça lateja, então uma dor de cabeça violenta passa por ela. Meu cérebro é inundado por uma série de flashbacks, várias cenas aleatórias da noite anterior bombardeando a minha mente. Olho para a câmera espantado e ela dá um zoom dentro do meu olho como se eu fosse a Raven. Eis o que veio à memória:
Eu e o Sid, bêbados pra caralho, na cozinha, cuja lâmpada comum nós tínhamos por uma de luz negra. Estiquei meu braço pra pegar outra cerveja no congelador, quando reparei que a mágica do ultravioleta A fazia com que minhas unhas brilhassem como se tivesse passado algum tipo de esmalte neon maneiro pra caralho. Era como se eu fosse um Tron, só que gay.
― CARALHO SID PUTA MERDA VEM VER ISSO AQUI
― O que fCARAAALHO OLHA A MINHA TAMBÉM LOLOLOLOLOL
― PARECE QUE PINTOU SEU GAY LOLOLOL
― ABSUDIHWMD SJLKSHKWHKW (também não sei) A GENTE É VIADO
― QQUEIASNS AJAHWN DUINADUDOAQ É MESMO
Teve também esse momento que até hoje eu não consigo explicar. Foi assim: eu estava, por algum motivo, entretido pra caralho segurando uma garrafa de Montilla na altura dos olhos, encarando o pirata que me encarava de volta.

Essa era a minha visão na hora.
Aí eu baixo a garrafa, tirando-a do meu campo de visão, e o que eu vejo é o Sid na exata mesma posição apoiado na bancada da cozinha, assim:

Foi... estranho.
Também lembrei de estar subindo as escadas porque algumas pessoas da festa tinham simplesmente sumido. Abro a porta do meu quarto pra encontrar Don e Jhan (sim, os mesmos) e (dessa vez) a Su em cima da minha cama, checando com as próprias mãos se tava tudo certo dentro das calças um do outro. Fecho a porta na mesma hora por reflexo, mas abro de novo em seguida e agora Don está em pé vendo meus DVDs, Jhan lendo um livro e Su jogando videogame. "Opa, e aí Luke."
Fora do meu quarto, espertinhos.
Várias cenas virando copo, mais algumas de amigos lambendo mamilos de outros amigos (GAH), e voltei para o presente. Saio da cozinha e fui para o quintal, apenas pra encontrar mais dois sobreviventes: Nohway e...
... Macaco.
Ele havia acabado de sair do banheiro da empregada, que fica no quintal, se sentou encostado perto da porta e lá ficou, com a cabeça abaixada entre as pernas. Nohway aproximou-se e perguntou:
― Ei, cara. E aí, como é que tá?
― Tudo BWLERGADHJDJ bem.
E por "BWLERGADHJDJ", entenda

Olho para o chão e vejo marcas amarelo-esverdeadas por todo o piso. Me agacho e, como se fosse o cara daquela série d'O Vidente, tenho mais uma vez visões do que aconteceu ali na noite anterior ao tocá-las (risos): estou sentado na cadeira, rindo, quando alguém grita "CARALHO, O MACACO TÁ VOMITANDO."
Foi quando Macaco finalmente começou a mostrar a que veio: pilhar e destruir. No ponto alto da noite, maluco ficou tão bêbado, TÃO bêbado, que já nem conseguia segurar o vômito dentro da boca. Macaco provavelmente gostava muito de dançar e também de vomitar, então decidiu fazer OS DOIS AO MESMO TEMPO!!!!!!! É isso mesmo: ele começou a DANÇAR E VOMITAR POR TODO O QUINTAL, protagonizando assim um dos momentos mais dramáticos da vida de todos na festa.
Ele vomitou até no VASINHO DE PLANTA. Que tipo de pessoa você tem que ser pra ir na casa de alguém e VOMITAR NO VASINHO DE PLANTA?
Daí o Macaco se levantou de onde estava e achou que seria legal deitar na mesa do meu quintal e dormir lá. E foi o que ele fez.
Acho melhor ir lá no quarto acordar o trio que AINDA ESTAVA na minha cama. Meses depois, Hillne, o que dormia em cima dos outros dois, ao ser questionado sobre a festa, diria: "hehe louca aquela festa, né? Só sei que acordei numa cama com dois caras, como eu fui parar lá, né? Hehe".
Hehe.
As pessoas estão (finalmente) indo embora e eu só quero dormir. Acordamos o Macaco, que diz que tem que correr para se encontrar com uma menina com a qual tinha marcado um encontro daqui a pouco. Pois é. Isso te faz pensar: quantas pessoas você já beijou sem nem imaginar que há apenas algumas horas estavam dançando e praticamente vomitando o estômago pra fora?
Com a casa finalmente vazia, só penso em chegar logo em minha caminha. Mas antes decido dar uma passada no banheiro, pois todo aquele álcool ainda estava dentro de mim lutando pra sair. O banheiro mais próximo era o da empregada, então para o banheiro da empregada eu fui.
Abro a porta, e

Como um serial killer que deixa uma rosa sobre o corpo de sua vítima, Macaco depositara ali sua última lembrancinha pra mim. O problema é que não cheirava nem um pouco como uma, e o lugar precisou de umas 500 descargas e toda uma equipe com trajes anti-radiativos pra se tornar humanamente acessível de novo (na verdade, aquilo só sumiu de lá da noite pro dia. Talvez a diarista seja realmente muito boa, talvez aquilo só tenha retornado pro planeta natal. Sei lá).
No final das contas, Macaco realmente fez jus ao nome.






