Abro os olhos ao som do despertador do celular, que sempre desperta às 6h00. Tenho que acordar às 7h00, então programo o relógio pra tocar uma hora antes, porque daí eu só fico apertando SNOOZE a cada 10 minutos, até finalmente desistir de brigar com o celular e me levantar da cama, às 7h. Acreditem, meu método é (quase) infalível, e ainda dá aquela sensação deliciosa de ter cochilado por mais 1h e passado a perna no compromisso inadiável. Procrastinadores sabem exatamente a que sensação me refiro.
É assim que todos os meus dias têm começado, e é assim que todos eles prosseguem. Nas últimas semanas, minha vida tem sido um verdadeiro Dia da Marmota, em um loop aparentemente infinito, mas que na real são só 5 (intermináveis) dias da semana. Depois de acordar, ligo o PC e deixando a música tocando no shuffle em um volume que dê pra ouvir do chuveiro (meu quarto é uma suíte, só que o banheiro curiosamente não tem porta, reflitam). Tem vezes que tenho que sair do banheiro pingando porque o shuffle me aparece com alguma música que já enjoei, ou pra pegar a toalha que larguei no dia anterior em cima de alguma coisa que não é o boxe. Saio do banho, pego a primeira roupa que encontro, minha mochila e saio de casa, a música ainda me acompanhando via fone de ouvido. No começo das aulas da faculdade, eu me vestia realmente bonitinho, da cabeça aos pés. Mas então os dias foram passando, e eu reparei que as pessoas da Federal do Pará se vestem tão mal, mas TÃO MAL, que eu simplesmente desisti, e hoje meio que sou um deles. Se antes eu me vestia pronto pra um passeio no shopping, hoje parece que eu tava limpando pára-brisas de carro no semáforo, aparentemente, a moda que impera por lá.
Dois quarteirões até a parada, avanço bravamente em direção a meu veículo de transporte público. E, dependendo de qual ônibus eu pego, já até sei em que lugar sentar e em que curvas trocar pra poder fugir do sol. Nível 9998 em conhecimento de ônibus não é pra qualquer um, sou o xerife dos transportes públicos dessas bandas da cidade.
Chego a meu destino final, desço do ônibus e vou em direção a minha sala. Eu sempre defendi a subestimada "modernidade" da cidade em que moro com unhas e dentes. Quando me perguntavam se aqui tem prédios ou se os índios que trafegam pelas ruas da cidade são canibais ou ainda se a domesticação de jacarés e jaguatiricas é legalizada aqui, não só achava a pessoa que perguntava um completo imbecil como sentia vontade de estuprar os olhos da mãe dele (e, muitas vezes, eu fazia questão de compartilhar com essa pessoa a minha vontade). Mas tudo isso caiu por terra no dia em que encontrei uma COBRA no meio do campus, e depois fiquei sabendo que aquilo era comum por ali. Pelo amor de Dio, uma COBRA. Desde então, ando seriamente preocupado com a possibilidade de encontrar uma onça na cantina ou ser assaltado por macacos-prego na saída da aula.
Falando em assaltos, é outra coisa rotineira por aqui. O estranho aqui é sair de casa e voltar com tudo nos bolsos. Faz tempo que Belém deixou de ser uma cidade provinciana, onde as pessoas colocavam cadeiras na frente da casa e assistiam a vida passar sem correr o risco de ter o celular roubado (uns 3 anos). Se bem que, em muitos lugares, as pessoas QUE SENTAM NA FRENTE DAS CASAS SÃO AS QUE ASSALTAM. Sem falar nos boatos sobre um bairro onde assaltam de arco-e-flecha, mas nada confirmado ainda.

ARRASTÃO
As periferias ao redor da metrópole crescem em uma velocidade absurda, graças ao péssimo sistema de escolas públicas do estado e à dificuldade que pessoas de baixa renda têm de manejar uma tecnologia tão avançada quanto uma camisinha. A pobreza associada à falta de educação transformam os subúrbios de Belém em verdadeiras fábricas de irmãos Metralha, com novos ladrões brotando da terra batida sem asfalto (que nem os Uruk-hai) todos os dias e vindo para o centro roubar nossos celulares, montados em suas destemidas bicicletas e usando bigodes e topetes pintados de loiro (pintura de guerra) para nos intimidar.
Eu já fui assaltado 3 vezes. Na primeira, bebendo um café com dois primos em uma rua deserta, vejam que ideia sensacional; na segunda, eu e o Sid voltando da escola, quando o Jorge desceu da bicicleta e veio RASTEJANDO na nossa direção, ainda amigavelmente nos cumprimentando com um caloroso "VO TE MATAR". Demos o celular do Sid e uma nota 10/10 pela teatralidade, realmente nos chocou; já na terceira vez, a pior de todas, uma QUADRILHA INTEIRA nos cercou, eu e Jade, e levaram a bolsa dela. Tão pensando o quê, ueca tudi diango.
Aproveitando pra dizer rapidinho aqui que o Dia de Meninas de Toalha vai ser cancelado esse ano, pra tristeza dos marmanjos que esperavam ansiosamente pelo dia, devido ao número surpreendentement escasso de fotos recebidas. É isso aí, galera, eu e o Rafa agredecemos a quem participou e pedimos desculpas, mas ano que vem vocês estarão aqui, fiquem ligadinhas.
Voltando ao meu dia-a-dia, vale comentar aqui que as pessoas do meu curso são DOIDAS. Sem exagero, desconfio que alguns de lá sejam realmente perturbados. Eu já faltei 3 semanas de aula direto pra ver se me esqueciam, mas a galera aparentemente me marcou. Além de ser discriminado por ser o único que usa tênis lá, já chegaram uma vez e começaram a puxar assunto sobre (vejam só vocês) a construção da hidrelétrica em Monte Bel, suas consequências para o ecossistema local e como isso iria prejudicar as tribos indígenas da região. Tipo... GET A LIFE, isso é com o James Cameron, não comigo, cara.
Fim da aula, vou pra parada, e este sim, meus amigos, é o ponto alto do meu dia: a volta para casa, por volta do meio-dia, 1h da tarde. Antes de tudo, Belém é quente. Mas não só quente, como úmida também, graças à Pandora ao redor da cidade. Pra ilustrar o que eu digo, faça a seguinte experiência: vá até a cozinha, pegue um copo. Leve a boca e dê uma baforada dentro dele, até o vidro embaçar (SE NÃO PEGOU UM DE VIDRO, PROBLEMA É SEU, COLEGA). Em seguida, vire rapidamente o copo na mesa com a boca contra ela. Agora, sei lá, ENTRE DENTRO DO COPO. Pronto, essa é Belém, onde tem dias em que você JÁ SAI DO BANHO SUADO, e, a menos que tenha um carro com ar-condicionado, as chances de sair de casa para um compromisso e chegar lá com o perfume intacto são praticamente nulas. O inferno deve ter uma ala assim, não é possível.
Então, entro no ônibus, e logo ele começa a lotar. Como ele sai da parada vazio, conseguir assento não é a coisa mais difícil. O problema é SAIR DELE depois. Um verdadeiro corredor polonês vai se formando ao seu redor, impedindo a livre circulação na área existente entre você e a porta de saída. Quando me encontro em um ônibus lotado, eu não vejo pessoas ali. Eu vejo... axilas e genitais, duas áreas do corpo humano alheio preocupantes em uma situação caótica dessas. Axilas porque as pessoas em pé (a grande maioria, óbvio), para se defenderem da inércia associada a gravidade dentro de um veículo em movimento, seguram-se nas barras de aço da parte de cima do ônibus, deixando suas axilas à mostra (FATO RÁPIDO: 80% da população belenense usa camisetas) e fazendo com que você corra o SÉRIO RISCO de entrar em contato com alguma delas, e seus respectivos pelinhos nojentos. E genitais porque, bem, não sei quanto a vocês, mas quando estou em um ônibus lotado, com 3784 pessoas apertadas em uma área humanamente ultrajante, e alguma delas tem de se esgueirar por trás de mim para alcançar a porta, tudo no que consigo pensar é "PORFAVORNÃOESFREGUEMOPAUEMMIM, PORFAVORNÃOESFREGUEMOPAUEMMIM"
Mas a situação consegue ficar ainda PIOR, não duvidem da capacidade da vida de sacanear alguém quando tá inspirada, e sempre, SEMPRE tem aquele que acha que os sons urbanos já não são estressantes o suficiente, então resolve sacar o Samsung comprado de 24x na Yamada, desconectar os fones de ouvido, e dividir sua playlist de músicas ruins com todo mundo do ônibus. E sabe porque elas são ruins? Porque quando uma pessoa tem bom gosto, é porque tem bom senso, e gente com bom senso NUNCA faria isso. Logo, você nunca vai encontrar uma pessoa que deixe o celular com música rolando no volume máximo em um ônibus que toque alguma coisa além de funk, technobrega, Hóri, ou qualquer outra coisa que não presta. A vontade e revolta que dá não é nenhuma outra senão a de chegar pra pessoa, tomar o celular da mão, gritar um "CARALHO" o mais alto que seus pulmões permitirem e jogar o aparelho pela janela. Sem sermões, sem lições de moral, sem xingamentos sem nada. Só um bom e velho "CARALHO" bem entonado mesmo, apenas isso.
O gosto musical do belenense é outra coisa preocupante, aliás. Calypso não é nem de longe a pior coisa que o Pará poderia ter dado para o resto do Brasil, acreditem. Além de parir todos os dias novas melodias de gosto duvidoso, o paraense desconhece qualquer outro tipo de música que venha de fora quando o assunto é rock. E uma das poucas coisas que a vida me ensinou, é que se você estiver andando na rua com mais dois amigos, todos de camisas pretas, sempre alguém vai passar por vocês e gritar "UHUL, GALERA DO METAL" ou ainda "YEAH, GUNS N' ROLL", enquanto erguem as mãos no ar fazendo hang loose.
Não há indies em Belém do Pará. Pra vocês terem uma ideia, o movimento emo chegou aqui não faz mais de três, quatro anos. E pior do que as músicas, só mesmo a cabocada de Belém, facilmente encontrada nas noites da cidade, seja na Praça da República, espalhando o aroma da Jamaica por lá, seja nas baladinhas para menores de idade que só vão até as 22h, onde a moda é usar camisas tão apertadas que você consegue distinguir o relevo dos mamilos. Dos caras.
Desço do ônibus, continuo a volta para casa. Com sorte, como já são quase 15h, começou a chover faz uma meia hora, quando eu ainda estava dentro do ônibus. O que é pior do que um ônibus lotado e quente? É um ônibus lotado, quente e com TODAS as janelas fechadas. Eu me sinto numa sauna, só que como um dos carvões. Mas o calor passa tão logo eu desço do ônibus e encaro a chuva torrencial que cai sobre a cidade, que é tão suja e destruída, que não demora a todos os bueiros entupirem com o lixo da rua, fazendo com que todas as ruas virem versões urbanas de pequenos riachos. Um dia, a imundície de todo o povo e o lixo das ruas vai espumar até a cintura, e quem estiver passando por mim vai olhar e perguntar "cê tem guarda-chuva aí?", e eu vou olhar de volta e sussurrar "não".
A grande verdade é que a única coisa (tirando a Jadok, claro) que tem me feito aguentar todos esses dias idênticos, um após o outro, são meus... fones de ouvido. É aquele negócio, fones são
Finalmente chego em casa, me jogo na cama e MORRO. Depois de algum tempo, é levantar, estudar, comer alguma coisa gordurosa com bacon, ir pro computador
Então eu acordo.

















Sobre